terça-feira, 30 de julho de 2013

Arcoverde-PE: Povos indígenas ocupam gerências de educação em Pernambuco

O sertão de Pernambuco amanheceu nesta terça-feira, 30, com o candeeiro do movimento indígena acesso. Cerca de 600 integrantes de 12 povos do estado ocuparam as Gerências Regionais de Educação dos municípios de Arcoverde e Floresta. As reivindicações são antigas e a paciência das comunidades acabou. Conforme as lideranças, as ocupações seguirão por tempo indeterminado. Mesmo com verbas liberadas há seis anos para a construção de escolas, no povo Tuxá os professores ensinam na casa de farinha da aldeia.  

“A mobilização é contra o descaso do governo estadual, que não cumpriu com suas obrigações. Existem verbas para 15 escolas há seis anos e nenhuma delas foi erguida. Outras dezenas de escolas têm apenas os professores e professoras e nenhum funcionário administrativo”, afirma a liderança Francisca Kambiwá. As ocupações ocorreram de forma pacífica e os povos dançam o Toré nas gerências.

Em abril deste ano, o movimento indígena do estado realizou o Abril Indígena - Acampamento Terra Livre, em Recife (PE), puxado pela Comissão de Professores Indígenas de Pernambuco (Copipe). Os povos denunciaram o não cumprimento do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Educação, vencido em 2010, firmado entre o Ministério Público Federal (MPF) e a Secretaria Estadual de Educação. As verbas para a construção das escolas foram liberadas pelo Ministério da Educação, via Plano de Ação Articulado (PAR), em 2007.

Manifestações no centro do Recife, audiência pública na Assembleia Legislativa e uma carta – leia aqui na íntegra - forçaram o governo a receber os indígenas e negociar. O secretário de Educação Ricardo Dantas marcou para o último dia 17 de junho uma reunião com respostas para as reivindicações. Porém, Dantas remarcou o encontro para seis dias depois e mais uma vez não compareceu.   

“Então só saímos das gerências com nossas reivindicações. Como pode um governo ter a verba para construir escolas há três anos e não levantar nenhuma?”, denuncia Francisca. A Kambiwá afirma que motoristas estão com os salários e por isso deixam de ir buscar os alunos e alunas, causando evasão escolar. “É assim em todos os povos, por isso estamos unidos nessa luta”, encerra.

Na gerência regional de Arcoverde estão 300 indígenas Kambiwá, Tuxá, Xukuru e Kapinawá. Para o município se dirigiram também 12 dirigentes da Copipe, representando cada povo do estado. Na ocupação da gerência de Floresta, alto sertão pernambucano, estão outros 300 indígenas Pipipã, Pankararu, Entre Serras Pankararu, Atikum e Pankará.  

“A escola é na casa de farinha”  

Uma das situações mais difíceis é a do povo Tuxá. Na comunidade, não há nenhuma estrutura escolar, professores contratados ou corpo administrativo. “Somos um povo sofrido, menino. É tanta luta. Fomos reconhecidos, mas ainda nossa escola funciona na casa de farinha. Ocupamos aqui para ver se melhora, não tem outro jeito”, explica o cacique Tuxá, Geraldo Pajeú.

A educação diferenciada é um direito dos povos indígenas, porém esbarra nas secretarias estaduais de educação, conforme o cacique Kambiwá José Pereira da Silva, o Zuca. Se por um lado existe dificuldade de conseguir ao menos condições de funcionamento, por outro as escolas são constantemente questionadas quanto aos currículos desenvolvidos pelas organizações de educação dos povos.

“Nosso caso não está sendo tratado. Há seis anos esse governo está aí e nada foi resolvido. A gente já vem a um tempo tentando sentar com o governo para resolver a questão do transporte, do corpo administrativo, porteiros, salários atrasados e o concurso. Tivemos a necessidade de fazer as ocupações para forçar essa conversa e resolver os problemas”, enfatiza o cacique Zuca.

As comunidades, de acordo com os indígenas, é que garantem aquilo que o Estado não oferece - mesmo com recursos liberados. Em muitos povos, as mulheres fazem a comida dos alunos, os caciques improvisam escolas e os professores e professoras suprem as demais necessidades. A precariedade, porém, preocupa as lideranças e faz com que as mobilizações em busca dos direitos ocorram.  

“O governo estadual não trata a educação dos povos indígenas como necessária. Percebemos que não. Em abril fizemos um grande movimento, o MPF pediu explicações e disse que ia agir se a secretaria de educação não tomasse providências e mesmo assim nada foi feito. É uma vergonha”, salienta Pretinha Truká, em Brasília (DF) para reuniões envolvendo a educação indígena.


Galeria de imagens 

Galeria de Vídeos 

 Povo Kapinawa: A Luta Pela Terra

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...