sábado, 2 de julho de 2016

Alceu Valença nos anos 70 encontra os parceiros definitivos

De um disco pouco escutado à maturação artística em Paris


Paulo Rafael e Alceu Valença, parceria de quatro décadas / foto: divulgação/Yanê Montenegro
Paulo Rafael e Alceu Valença, parceria de quatro décadas
foto: divulgação/Yanê Montenegro
JOSÉ TELES
Em meados dos anos 60, o Recife era um caldeirão cultural fumegante. Os bares na Conde da Boa Vista, ou próximos dali, estavam sempre ocupados com peças e musicais engajados. Ocupação feita por artistas que logo seriam conhecidos nacionalmente, Naná Vasconcelos, Teca Calazans, Marcelo Melo, Geraldinho Azevedo. O estudante de direito Alceu Valença ainda fazia parte da plateia, e nunca imaginaria que o violonista mais requisitado da época seria um dia seu parceiro e que encetariam uma amizade tão forte, a ponto de serem confundidos pelos admiradores:
"Uma vez fui num quiosque tomar uma água de coco, o rapaz falou comigo animado, disse ser meu fã. Depois que tomei água, fui pagar, e ele disse: Não, Alceu, aqui você não paga nada", conta Geraldo Azevedo. Ele é, obviamente, o violonista admirado por Alceu Valença nos idos de 1966: "Tenho um ano a mais que ele, mas considero Alceu meu irmão mais velho, o parceiro mais importante na minha carreira, é um revolucionário, mudou a história da música pernambucana", elogia, Geraldo Azevedo, que diz lembrar de Alceu nos shows que fazia no Recife em 1966, 67:
" Lembro dele num bar no 13 de Maio. Já era carismático, dava pra notar. Eu fui pro Rio e um dia Carlos Fernando falou comigo, que tinha um rapaz com um trabalho de música. Fomos encontrar com ele, naquele dia fiquei impressionado com a maneira de Alceu tocar. Eu vinha de uma música de protesto bossa­novista, e ele de uma coisa ligada ao rock, ao mesmo tempo com uma raiz nordestina muito forte", comenta Geraldo.
Alceu Valença chegou no Rio na fase mais cinzenta da ditadura militar. A cultura estava sob o tacão da censura e dos órgãos da repressão, Geraldo Azevedo era particularmente visado por ter tocado na banda que acompanhava o inimigo nº 1, Geraldo Vandré, na sua ultima turnê no País, em 1968, com Naná Vasconcelos, Franklin da Flauta (Franklin Correa) e Nelson Ângelo. "Depois do AI­5, fui preso. Conheci Alceu num momento cultural muito difícil. Alguns artistas tinham sido banidos, censurados, existia uma repressão muito grande à cultura. Eu trabalhava como desenhista, e Alceu chegou com aquele pique. A gente se encontrava todos os dias para fazer música. Com o festival universitário, fomos vistos pelo pessoal da Copacabana, e convidados para gravar".
O LP (cujo título é o nome dos dois) recebeu um novo método de mixagem, o quadrafônico, que não deu certo, e acabou confundindo o público, muita gente até hoje chama o disco de Quadrafônico: "Acho que foi o primeiro quadrafônico do Brasil, era inovador na mixagem, foi bastante comentado. Na época apareceu na Veja uma foto do ministro da Educação, Jarbas Passarinho segurando o LP da gente. Ficamos meio cabreiros, porque era o ministro da ditadura", lembra Geraldo Azevedo.
O disco não aconteceu, a música dos dois pernambucanos não se encaixava no modelo de então, de opostos. Ou rock desbundado, influenciado pelo tropicalismo, ou canções de letras esotéricas com influências do soul americano. O álbum foi bem aceito pela crítica, mas até mesmo no Recife, os dois eram ilustres desconhecidos. Cartazes na cidade anunciavam, no final de dezembro, no Nosso Teatro, a apresentação de Alceu Valença e Geraldo Rodrigues (sic), com Robertinho e seu Grupo.
ESPANTALHO
De volta ao Rio, Alceu Valença por pouco não participa do projeto Disco de Bolso, idealizado pelo compositor Sérgio Ricardo em parceria com o badalado semanário O Pasquim. Uma ideia simples. Uma revista vendida em bancas, com um compacto, que trazia num lado um arista consagrado, e no outro, um iniciante. O projeto contribuiu para que Fagner (que participou com Caetano Veloso) e João Bosco (com Tom Jobim) se tornassem mais conhecidos no Rio. Alceu Valença participou, na Faculdade de Direito de Niterói, do show de lançamento do Disco de Bolso, com Sergio Ricardo, Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Fagner, Piri, Egberto Gismonti e Rosinha de Valença.
Sérgio Ricardo, quando foi dirigir um filme, inicialmente intitulado O Espantalho de Acauã, baseado em cordel de sua autoria, convidou Alceu para ser o espantalho e Geraldo Azevedo para a direção musical: "Acabei fazendo também um personagem, e herdei a barba. Neste tempo, o Alceu usava barba e eu não. Achei que o personagem merecia uma barba, então passei três meses barbudo. Depois não tirei mais a barba, até hoje uso a barba do Severino", brinca Geraldo Azevedo. Os dois, coincidentemente, chegaram ao sucesso no começo dos anos 80.
RECORDISTA
Paulo Rafael vinha do colégio quando cruzou com Alceu Valença na Boa Vista: "Eu usava um cabelão, com um colar, acho que com uma cruz. Ele me viu e disse: Você é músico, qualquer dia a gente tira um som juntos. Eu disse tudo bem, só não sabia que ia passar tanto tempo tirando um som com ele", brinca o guitarrista, que toca com Alceu Valença desde o festival Abertura, de 1975. Poucos irmãos conviveram tanto tempo: "Moravam num quitinete ele, o irmão, Decinho, e Carlos Fernando. Fui morar com ele. Quem pagava o pato geral era Decinho, que trabalhava, era engenheiro. Só rolava show de três em três meses. Então era guardar o cachê pra dois meses, na base do arroz com cebola. A bebida era caninha", relembra Paulo Rafael os tempos difíceis.
Depois de três discos pela Som Livre que foram bem de crítica, mas fracos em vendas, Alceu Valença decidiu morar na França e convidou Paulo Rafael para ir junto. Trocaram a cachaça pelo vinho francês, mas a dureza continuou. Paulo Rafael conta que passavam o dia tocando: "Quando a gente foi gravar o Saudade de Pernambuco, saiu rápido. Desta fase ele tem uma das melhores lembranças das quatro décadas com Alceu Valença. Em 1979, só através de gravadora se chegava ao seleto festival de Montreux, na Suíça. Alceu conseguiu marcar uma reunião com o produtor do evento, Claude Nobs:
"Alceu falou: Vamos entrar na sala do cara tocando. E eu, pensando, meu Deus, vai dar errado. Entramos tocando. Tomamos a sala de assalto. Claude Nobs ficou meio assustado. Depois, achou o máximo". Não conseguiram Montreux, mas fizeram o Lyon Folk Festival, pertinho de lá, que também era importante. Foi quando aconteceu o episódio que Alceu Valença gosta de contar. Perguntaram se ele não temia se apresentar depois de Joan Baez: "Por que você não pergunta a Joan Baez o que ela acha de tocar antes de mim?", rebateu o filho mais famoso de São Bento do Una.
Fonte:jconline.ne10.uol.com.br

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