domingo, 25 de novembro de 2012

Seca em Arcoverde: Riacho do Pau sugado por bombas para plantação de capim e tomate


Seca: Riacho do Pau sugado por bombas para plantação de capim e tomate


          Assim como todos os demais reservatórios sertanejos, o Riacho do Pau, que abastece a cidade de Arcoverde, não fica de fora da triste situação da estiagem que assola a região, a maior dos últimos 50 anos. Durante as últimas semanas, o jornalista Magno Martins, percorreu o Agreste, Sertão e a Zona da Mata de Pernambuco mostrando o flagelo da seca e o castigo que a grande estiagem causa em animais e pessoas. Cenas fortes de dezenas de animais mortos pelas estradas e fazendas. 

Pessoas com latas de água na cabeça, barragens completamente secas, homens, mulheres e crianças brigando por um balde de água em meio a chegada dos carros pipas. Cidades inteiras sem uma gota de água nas torneiras. O desperdício de água e de dinheiro público em obra sem fim.

Filme que Arcoverde viu pela última vez em 2003, quando o açude do Riacho do Pau entrou em colapso e a população ficou a mercê dos pipas oficiais e particulares. Pois esse filme está perto de acontecer de novo, caso não se confirmem as previsões de chuvas para janeiro e fevereiro de 2013. O açude hoje está com cerca de 30% de sua capacidade, cerca de 5 milhões de m², se não estiver com menos pois, segundo informações do IBGE, o Riacho do Pau estaria hoje com 20% de sua capacidade. A foto abaixo mostra o quadro atual do reservatório. A régua de medição está cerca de 6 metros abaixo do nível total.

No caminho até o açude, a caatinga cinzenta e queimada é um cenário pra lá de conhecido do sertanejo, mas quando nos aproximamos do reservatório descobre-se que estamos em um verdadeiro "oásis", ou pode-se mesmo pensar que se está no perímetro irrigado de Petrolina, aonde o velho Chico, mesmo cansado, ainda escorre muitas águas pelas suas veias Nordeste à dentro.

Canos cortam as plantações levando
água do Riacho do Pau
A beira de Arcoverde entrar em colapso com seu abastecimento, aonde moradores de bairros mais afastados estão há mais de 4 ou mesmo 6 meses sem ver água nas torneiras, é possível ver que agricultores e produtores rurais de outros municípios transformaram as margens e arredores do Riacho do Pau na nova fronteira agrícola da seca regional. Motobombas trabalham de dia, mais ainda à noite, sob o manto da escuridão e o sono das autoridades, sugando a pouca água do açude do Riacho do Pau para irrigar plantações de tomate, pimentão, maracujá e até de capim para o pasto. Abaixo (foto), em plena manhã, a poucos metros da estação de controle da Compesa, 04 motobombas puxavam água do açude para irrigar uma plantação de capim na área conhecida como Riacho do Pau. Regadores e mangueiras grossas se encarregavam de espalhar a água que falta para os moradores de Arcoverde em meio à pastagem de capim. E como pode-se ver nas fotos, as bombas não estavam escondidas, muito pelo contrário, bem visíveis e, segundo informações, pertenceriam a fazenda da família de um político da cidade da Pedra.
Trabalhador rural irriga com mangueira plantação de capim às margens do açude
Na outra ponta, na região conhecida como Caldeirão, a coisa não é diferente. Durante a reportagem foi possível registrar uma motobomba funcionando no mesmo momento em que as outras 4 atuavam do lado oposto. Ela levava água para irrigar as plantações de tomates, maracujás e pimentão. De acordo com informações de moradores, o plantio pertenceria a produtores de outras cidades que arrendaram as terras, contrataram os próprios moradores e sugam a água que falta para o povo de Arcoverde, sem pagar nada e desafiando as autoridades. Diariamente, às 7h, caminhões chegam a área trazendo os trabalhadores rurais e saem de volta à cidade por volta das 17h.
motobombas retiram água do açude para irrigar capim e tomates
Ao longo da estrada é possível ver os canos que fazem o transporte da água do açude para as lavouras. A água chega a empoçar nas estradas em plena seca braba, aonde muitas famílias próximas não tem um pingo de água em suas barragens e até mesmo em suas cisternas. Ao olhar ao redor das plantações, há perder de vista não se vê nenhuma outra fonte de água que não seja o açude do Riacho do Pau. 

Nas proximidades da Compesa, uma rede de canos distribuem
água para vários pontos da localidade.
Enquanto Arcoverde e sua população ficam a mercê de semanas sem água, meses e até ameaçada de um colapso total em seu abastecimento, água do único reservatório que abastece a cidade é retirada indiscriminadamente. Água retida para o consumo humano e não para irrigação. Em uma das fotos é possível ver canos iguais aos que servem para irrigar este “oásis” de alguns poucos, pendurados na área da estação de controle da própria Compesa. Uma verdadeira teia de canos e irresponsabilidade com a vida de mais de 70 mil habitantes que dependem daquele reservatório percorrem as áreas próximas a sede da estação da companhia de águas de Pernambuco. 

Terreno arado pronto para o plantio
às margens do açude
Ainda achando pouco o que já vem sendo utilizado, ao longo da estrada e à beira do açude do Riacho do Pau, é possível ver várias áreas de terras preparadas para o plantio. Resta saber até quando permanecerá a “fronteira agrícola” debaixo dos olhos das autoridades. O Riacho do Pau está secando, de um lado pelo consumo da cidade, seu único objetivo, do outro pelo forte calor e pela retirada indiscriminada de sua água por motobombas dia e noite para beneficiar somente alguns poucos em detrimento da necessidade de 70 mil habitantes de Arcoverde. 


Canos levando água para plantio na área do Caldeirão

Um oásis verde em meio a caatinga seca às margens do
açude Riacho do Pau

Canos colocados embaixo da terra nas passagens
entre os plantios

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